Este estudo nasceu de algo que vivi antes de estudar. Quando cheguei a Portugal para fazer o doutoramento, passei meses a trabalhar fora da minha área — o tipo de trabalho que muitas pessoas imigrantes recém-chegadas, sem reconhecimento imediato das suas qualificações, acabam por fazer enquanto esperam que os processos institucionais avancem. Eu era psicóloga, mas navegava um país que me pedia constantemente para provar competência de formas que tinham pouco a ver com competência e muito a ver com a minha origem.

Eu estava rodeada por pessoas em posições semelhantes: sobrequalificadas, mal remuneradas e profundamente dependentes umas das outras para orientação, indicações, apoio emocional e conhecimento prático que não aparece em nenhum guia oficial. Quando comecei a pensar sobre quem fica exposto a riscos psicossociais no trabalho e porquê, voltei muitas vezes a esse período. O título do artigo vem de uma frase dita por uma participante em entrevista. Ele capta algo que os dados confirmaram de forma consistente: aquilo que as instituições não oferecem, as pessoas constroem entre si.