Eu já trabalhava há tempo suficiente no campo da saúde LGBTQIA+ para perceber um padrão: sempre que se discutiam experiências laborais de populações LGBTQIA+, mulheres trans estavam ausentes dos dados ou apareciam apenas como nota de rodapé para explicar por que tinham sido excluídas. “População de difícil acesso.” “Amostra pequena.” “Limitações metodológicas.” O que eu lia nas entrelinhas era algo mais desconfortável: vidas consideradas demasiado inconvenientes para serem estudadas com rigor.
Isso não é apenas um problema metodológico. É um problema teórico e ético. Por isso fomos procurar. Realizámos entrevistas em profundidade com mulheres trans que navegam o mercado de trabalho português — e o que encontrámos não correspondia ao que as narrativas de crise normalmente preveem. Havia resiliência, estratégia, solidariedade. Mas havia também exaustão — a exaustão particular de ter de provar o próprio valor a cada passo, em cada função, diante de cada colega, repetidamente. Uma participante disse algo que nunca esqueci: “You always have to prove yourself.” Ela não estava a reclamar. Estava a descrever, com precisão, a estrutura da sua vida laboral. Essa frase tornou-se o título.